A cultura ocidental, de herança cristã-ortodoxa, borrou completamente a força transcendente do aspecto feminino da Criação. É preciso buscar, entre os próprios cristãos, em sua origem primitiva, o significado deste aspecto reprimido da nossa psique.
"O Trovão: a Mente Perfeita" é um dos escritos gnósticos encontrados em Nag Hammadi em 1945. Estava presente nos primeiros instantes do cristianismo, contribuindo de forma decisiva para, nos dias atuais, regenerar aspectos importantes da nossa espiritualidade. Arremessa, com isso, nosso profundo íntimo na busca pela harmonia entre os aspectos complementares da realidade. O Ser investigando os caminhos em busca da fusão mística, da unificação completa.
O TROVÃO: A MENTE PERFEITA
Eu fui enviada
pelo poder,
e vim para
aqueles que refletem sobre mim,
e tenho sido
encontrada entre aqueles que buscam por mim.
Olhem-me, vocês
que refletem sobre mim,
e vocês,
ouvintes, escutem-me.
Vocês que estão
aguardando por mim, recebam-me em vocês mesmos
E não me expulsem
de suas vidas.
E não façam com
que suas vozes me odeiem, nem seus ouvidos.
Não sejam
ignorantes de mim em qualquer lugar ou qualquer hora.
Estejam atentos!
Não sejam
ignorantes de mim.
Pois eu sou a
primeira e a última.
Eu sou a estimada
e a rejeitada.
Eu sou a puta e a
sagrada.
Eu sou a esposa e
a virgem.
Eu sou a mãe e a
filha.
Eu sou os membros
da minha mãe.
Eu sou a estéril
e muitos são os
meus filhos.
Eu sou aquela cujo
casamento é grandioso,
mesmo não tendo
um marido.
Eu sou a parteira
e aquela que não dá à luz.
Eu sou o consolo
das minhas dores do parto.
Eu sou a noiva e o
noivo,
e foi meu noivo
quem me gerou.
Eu sou a mãe do
meu pai
e a irmã do meu
marido
e ele é a minha
prole.
Eu sou a escrava
daquele que me preparou.
Eu sou a
governanta da minha prole.
Mas ele é quem
me gerou antes do tempo do nascimento.
E ele é a minha
prole no devido tempo,
e o meu poder vem
dele.
Eu sou o bastão
do poder dele na juventude dele,
e ele é a
bengala da minha velhice.
O que quer que ele
deseje acontece a mim.
Eu sou o silêncio
que é incompreensível
e a ideia cuja
recordação é frequente.
Eu sou a voz cujo
som é diversificado
e a palavra cuja
aparência é múltipla.
Eu sou a pronúncia
do meu nome.
Por que, você que
me odeia, me ama,
e odeia aqueles
que me amam?
Você que me nega,
me admite,
e você que me
admite, me nega.
Você que fala a
verdade sobre mim, mente sobre mim,
e você que
mentiu sobre mim, fala a verdade sobre mim.
Você que me
conhece, seja ignorante sobre mim,
e aqueles que não
me conheceram, deixe eles me conhecerem.
Pois eu sou
sabedoria e ignorância.
Eu sou timidez e
coragem.
Eu sou
sem-vergonha; eu sou envergonhada.
Eu sou força e eu
sou medo.
Eu sou guerra e
paz.
Preste atenção
em mim.
Eu sou aquela que
é desgraçada e majestosa.
Dê atenção à
minha pobreza e à minha riqueza.
Não seja
arrogante comigo quando eu estiver jogada na terra,
e você me
encontrará naqueles que estão por vir.
E não me olhe no
monte de esterco
nem vá e me
deixe jogada,
e você me
encontrará nos reinos.
E não me
desconsidere quando eu estiver jogada entre aqueles que
estão na
desgraça e nos piores lugares,
nem ria de mim.
E nem me lance
entre aqueles que são assassinados pela violência.
Mas eu, eu sou
compadecida e eu sou cruel.
Esteja atento!
Não odeie a minha
obediência
e não ame meu
autocontrole.
Na minha fraqueza,
não me abandone,
e não tenha medo
do meu poder.
Pois por que você
menospreza o meu medo
e amaldiçoa a
minha dignidade?
Mas eu sou aquela
que existe em todos os medos
e força diante
da vacilação.
Eu sou aquela que
é fraca,
e eu estou bem em
um lugar agradável.
Eu sou insensata e
eu sou sábia.
Por que vocês me
odiaram em suas deliberações?
Pois eu estarei
silenciosa entre aqueles que são silenciosos,
e eu devo
aparecer e falar,
Por que então
vocês me odiaram, vocês Gregos?
Porque eu sou uma
bárbara entre os bárbaros?
Pois eu sou a
sabedoria dos Gregos
e o conhecimento
dos bárbaros.
Eu sou o
julgamento dos Gregos e dos bárbaros.
Eu sou aquela cuja
imagem é grandiosa no Egito
e aquela que não
tem imagem entre os bárbaros.
Eu sou aquela que
tem sido odiada em todos os lugares
e que tem sido
amada em todos os lugares.
Eu sou aquela a
quem eles chamam de Vida,
e vocês chamaram
de Morte.
Eu sou aquela a
quem eles chamaram de Lei,
e vocês me
chamaram ilegalidade.
Eu sou aquela a
quem vocês perseguiram,
e eu sou aquela a
quem vocês renderam.
Eu sou aquela a
quem vocês espalharam,
e vocês me
juntaram.
Eu sou aquela
diante da qual vocês ficaram envergonhados,
e vocês foram
impudentes comigo.
Eu sou aquela que
não celebra festa,
e eu sou aquela
cujas festas são muitas.
Eu, eu sou
incrédula,
e eu sou aquela
cujo Deus é grandioso.
Eu sou aquela na
qual vocês refletiram,
e vocês me
zombaram.
Eu sou inculta,
e eles aprendem
através de mim.
Eu sou aquela que
vocês desprezaram,
e vocês refletem
sobre mim.
Eu sou aquela de
quem vocês se esconderam,
e vocês aparecem
para mim.
Mas seja o que for
que escondam,
eu mesma
aparecerei.
Pois onde quer que
vocês apareçam,
eu mesma me
esconderei de vocês.
Aqueles que [...]
para [...] sem razão [...].
Receba-me [...
compreensão] da aflição.
Receba-me para si
próprio através da compreensão e da aflição.
Receba-me para si
próprio de lugares que estão desfigurados e em ruína,
e furte daqueles
que são bons muito embora desfigurados.
Longe da vergonha,
receba-me para si próprio desavergonhadamente;
e do cinismo e da
vergonha,
censurem meus
membros em si próprios.
E venha até mim,
você que me conhece
e você que
conhece meus membros,
e estabeleça os
grandiosos entre as primeiras pequenas criaturas.
Venha até a
infância,
e não a despreze
por ser pequena e humilde.
E não rejeite
grandezas em algumas partes por causa da insignificância,
porque as
insignificâncias são reconhecidas pelas grandezas.
Por que você me
difama e me reverencia?
Você me feriu e
você teve piedade.
Não me separe dos
primeiros que você conheceu.
E não expulse
ninguém nem mande ninguém ir embora.
[...] mandar você
ir embora e [...] não conhecê-lo.
[...].
Que é minha
[...].
Eu conheço os
primeiros e os sucessores deles me conhecem.
Mas eu sou a mente
do [...] e o restante das [...].
Eu sou a sabedoria
da minha investigação,
e o encontro
daqueles que me buscam,
e a orientação
daqueles que me solicitam,
e o poder dos
poderes na minha sabedoria
dos anjos que
foram enviados pela minha palavra,
e dos deuses em
suas estações pelo meu conselho,
e dos espíritos
de cada homem que existe comigo,
e das mulheres
que habitam dentro de mim.
Eu sou aquela que
é reverenciada e que é glorificada,
e que é
menosprezada com desprezo.
Eu sou paz,
e guerra veio por
minha causa.
Eu sou uma
estrangeira e uma cidadã.
Eu sou a
substância e aquela que não tem substância.
Aqueles que não
estão associados comigo são ignorantes a meu respeito,
e aqueles que
estão na minha substância são aqueles que me conhecem.
Aqueles que estão
próximos de mim tem sido ignorantes a meu respeito,
e aqueles que
estão longe de mim são aqueles que têm me conhecido.
No dia que eu
estou perto de ti, você está longe de mim,
e no dia que eu
estou longe de ti, eu estou perto de ti.
[Eu sou ...]
internamente.
[Eu sou ...] das
criaturas.
Eu sou [...] da
criação dos espíritos.
[...] exigência
das almas.
Eu sou controle e
incontrolável.
Eu sou a união e
a desagregação.
Eu sou a
permanência e eu sou a desagregação.
Eu sou aquela
inferior,
e eles sobem até
mim.
Eu sou o
julgamento e a absolvição.
Eu, eu sou pura,
e a raiz do
pecado deriva de mim.
Eu sou o desejo na
aparência externa,
e autocontrole
interno existe em mim.
Eu sou a audição
que é acessível a qualquer um
e o discurso que
não pode ser captado.
Eu sou uma muda
que não fala,
e grande é a
quantidade das minhas palavras.
Ouça-me com
gentileza, e aprenda comigo com severidade.
Eu sou aquela que
exclama,
e eu estou jogada
sobre a face da terra.
Eu preparo o pão
com minha mente internamente.
Eu sou a sabedoria
do meu nome.
Eu sou aquela que
exclama,
e eu escuto.
Eu apareço e
[...] caminho em [...] sinal da minha [...].
Eu sou [...] a
defesa [...].
Eu sou aquela que
é chamada Verdade
e injustiça
[...].
Tu me reverencias
[...] e tu murmuras contra mim.
Tu que estás
subjugado, julgue os (que te dominam)
antes que eles te
julguem,
pois o juiz e a
parcialidade existem em ti.
Se tu fores
condenado por este, quem o absolverá?
Ou, se tu fores
for absolvido por este, quem será capaz de te deter?
Pois o que está
dentro de ti é o que está fora de ti,
e aquele que te
elaborou por fora
é aquele que
moldou o teu interior.
E o que tu vês
fora de ti, tu vês dentro de ti;
é visível e é
a tua vestimenta.
Escutem-me,
ouvintes,
e aprendam das
minhas palavras, vocês que me conhecem.
Eu sou a audição
que é alcançável a qualquer coisa;
Eu sou o discurso
que não pode ser compreendido.
Eu sou o nome do
som
e o som do nome.
Eu sou o símbolo
da letra
e a designação
da divisão.
E eu [...].
(3 linhas
perdidas)
[...] luz [...].
[...] ouvintes
[...] para vocês
[...] o grande
poder.
E [...] não
mudará o nome.
[...] aquele que
me criou.
E eu falarei o
nome dele.
Olhem então para
as palavras dele
e todas as
escrituras que foram concluídas.
Prestem atenção
nelas, ouvintes
e vocês também,
os anjos e aqueles que tenham sido enviados,
e vocês,
espíritos, que tenham se levantado dos mortos.
Pois eu sou aquela
que existe sozinha,
e eu não há
ninguém que irá me julgar.
Porque muitas são
as formas agradáveis que existem em numerosos pecados,
e incontinências,
e paixões
vergonhosas,
e prazeres
fugazes,
que os homens
aderem até se tornarem sóbrios
e subirem aos seus lugares de repouso.
E lá eles me encontrarão,
e viverão,
e não
morrerão novamente.