sábado, 13 de junho de 2015

O TROVÃO: A MENTE PERFEITA

A cultura ocidental, de herança cristã-ortodoxa, borrou completamente a força transcendente do aspecto feminino da Criação. É preciso buscar, entre os próprios cristãos, em sua origem primitiva, o significado deste aspecto reprimido da nossa psique.

"O Trovão: a Mente Perfeita" é um dos escritos gnósticos encontrados em Nag Hammadi em 1945. Estava presente nos primeiros instantes do cristianismo, contribuindo de forma decisiva para, nos dias atuais, regenerar aspectos importantes da nossa espiritualidade. Arremessa, com isso, nosso profundo íntimo na busca pela harmonia entre os aspectos complementares da realidade. O Ser investigando os caminhos em busca da fusão mística, da unificação completa.


O TROVÃO: A MENTE PERFEITA

Eu fui enviada pelo poder,
e vim para aqueles que refletem sobre mim,
e tenho sido encontrada entre aqueles que buscam por mim.
Olhem-me, vocês que refletem sobre mim,
e vocês, ouvintes, escutem-me.
Vocês que estão aguardando por mim, recebam-me em vocês mesmos
E não me expulsem de suas vidas.
E não façam com que suas vozes me odeiem, nem seus ouvidos.
Não sejam ignorantes de mim em qualquer lugar ou qualquer hora.
Estejam atentos!
Não sejam ignorantes de mim.


Pois eu sou a primeira e a última.
Eu sou a estimada e a rejeitada.
Eu sou a puta e a sagrada.
Eu sou a esposa e a virgem.
Eu sou a mãe e a filha.
Eu sou os membros da minha mãe.
Eu sou a estéril
e muitos são os meus filhos.
Eu sou aquela cujo casamento é grandioso,
mesmo não tendo um marido.
Eu sou a parteira e aquela que não dá à luz.
Eu sou o consolo das minhas dores do parto.
Eu sou a noiva e o noivo,
e foi meu noivo quem me gerou.
Eu sou a mãe do meu pai
e a irmã do meu marido
e ele é a minha prole.
Eu sou a escrava daquele que me preparou.
Eu sou a governanta da minha prole.
Mas ele é quem me gerou antes do tempo do nascimento.
E ele é a minha prole no devido tempo,
e o meu poder vem dele.
Eu sou o bastão do poder dele na juventude dele,
e ele é a bengala da minha velhice.
O que quer que ele deseje acontece a mim.
Eu sou o silêncio que é incompreensível
e a ideia cuja recordação é frequente.
Eu sou a voz cujo som é diversificado
e a palavra cuja aparência é múltipla.
Eu sou a pronúncia do meu nome.


Por que, você que me odeia, me ama,
e odeia aqueles que me amam?
Você que me nega, me admite,
e você que me admite, me nega.
Você que fala a verdade sobre mim, mente sobre mim,
e você que mentiu sobre mim, fala a verdade sobre mim.
Você que me conhece, seja ignorante sobre mim,
e aqueles que não me conheceram, deixe eles me conhecerem.


Pois eu sou sabedoria e ignorância.
Eu sou timidez e coragem.
Eu sou sem-vergonha; eu sou envergonhada.
Eu sou força e eu sou medo.
Eu sou guerra e paz.
Preste atenção em mim.
Eu sou aquela que é desgraçada e majestosa.


Dê atenção à minha pobreza e à minha riqueza.
Não seja arrogante comigo quando eu estiver jogada na terra,
e você me encontrará naqueles que estão por vir.
E não me olhe no monte de esterco
nem vá e me deixe jogada,
e você me encontrará nos reinos.
E não me desconsidere quando eu estiver jogada entre aqueles que
estão na desgraça e nos piores lugares,
nem ria de mim.
E nem me lance entre aqueles que são assassinados pela violência.
Mas eu, eu sou compadecida e eu sou cruel.


Esteja atento!
Não odeie a minha obediência
e não ame meu autocontrole.
Na minha fraqueza, não me abandone,
e não tenha medo do meu poder.
Pois por que você menospreza o meu medo
e amaldiçoa a minha dignidade?
Mas eu sou aquela que existe em todos os medos
e força diante da vacilação.
Eu sou aquela que é fraca,
e eu estou bem em um lugar agradável.
Eu sou insensata e eu sou sábia.


Por que vocês me odiaram em suas deliberações?
Pois eu estarei silenciosa entre aqueles que são silenciosos,
e eu devo aparecer e falar,
Por que então vocês me odiaram, vocês Gregos?
Porque eu sou uma bárbara entre os bárbaros?
Pois eu sou a sabedoria dos Gregos
e o conhecimento dos bárbaros.
Eu sou o julgamento dos Gregos e dos bárbaros.
Eu sou aquela cuja imagem é grandiosa no Egito
e aquela que não tem imagem entre os bárbaros.
Eu sou aquela que tem sido odiada em todos os lugares
e que tem sido amada em todos os lugares.
Eu sou aquela a quem eles chamam de Vida,
e vocês chamaram de Morte.
Eu sou aquela a quem eles chamaram de Lei,
e vocês me chamaram ilegalidade.
Eu sou aquela a quem vocês perseguiram,
e eu sou aquela a quem vocês renderam.
Eu sou aquela a quem vocês espalharam,
e vocês me juntaram.
Eu sou aquela diante da qual vocês ficaram envergonhados,
e vocês foram impudentes comigo.
Eu sou aquela que não celebra festa,
e eu sou aquela cujas festas são muitas.
Eu, eu sou incrédula,
e eu sou aquela cujo Deus é grandioso.
Eu sou aquela na qual vocês refletiram,
e vocês me zombaram.
Eu sou inculta,
e eles aprendem através de mim.
Eu sou aquela que vocês desprezaram,
e vocês refletem sobre mim.
Eu sou aquela de quem vocês se esconderam,
e vocês aparecem para mim.
Mas seja o que for que escondam,
eu mesma aparecerei.
Pois onde quer que vocês apareçam,
eu mesma me esconderei de vocês.
Aqueles que [...] para [...] sem razão [...].


Receba-me [... compreensão] da aflição.
Receba-me para si próprio através da compreensão e da aflição.
Receba-me para si próprio de lugares que estão desfigurados e em ruína,
e furte daqueles que são bons muito embora desfigurados.
Longe da vergonha, receba-me para si próprio desavergonhadamente;
e do cinismo e da vergonha,
censurem meus membros em si próprios.
E venha até mim, você que me conhece
e você que conhece meus membros,
e estabeleça os grandiosos entre as primeiras pequenas criaturas.
Venha até a infância,
e não a despreze por ser pequena e humilde.
E não rejeite grandezas em algumas partes por causa da insignificância,
porque as insignificâncias são reconhecidas pelas grandezas.


Por que você me difama e me reverencia?
Você me feriu e você teve piedade.
Não me separe dos primeiros que você conheceu.
E não expulse ninguém nem mande ninguém ir embora.
[...] mandar você ir embora e [...] não conhecê-lo.
[...].
Que é minha [...].
Eu conheço os primeiros e os sucessores deles me conhecem.


Mas eu sou a mente do [...] e o restante das [...].
Eu sou a sabedoria da minha investigação,
e o encontro daqueles que me buscam,
e a orientação daqueles que me solicitam,
e o poder dos poderes na minha sabedoria
dos anjos que foram enviados pela minha palavra,
e dos deuses em suas estações pelo meu conselho,
e dos espíritos de cada homem que existe comigo,
e das mulheres que habitam dentro de mim.
Eu sou aquela que é reverenciada e que é glorificada,
e que é menosprezada com desprezo.
Eu sou paz,
e guerra veio por minha causa.
Eu sou uma estrangeira e uma cidadã.
Eu sou a substância e aquela que não tem substância.


Aqueles que não estão associados comigo são ignorantes a meu respeito,
e aqueles que estão na minha substância são aqueles que me conhecem.
Aqueles que estão próximos de mim tem sido ignorantes a meu respeito,
e aqueles que estão longe de mim são aqueles que têm me conhecido.
No dia que eu estou perto de ti, você está longe de mim,
e no dia que eu estou longe de ti, eu estou perto de ti.


[Eu sou ...] internamente.
[Eu sou ...] das criaturas.
Eu sou [...] da criação dos espíritos.
[...] exigência das almas.
Eu sou controle e incontrolável.
Eu sou a união e a desagregação.
Eu sou a permanência e eu sou a desagregação.
Eu sou aquela inferior,
e eles sobem até mim.
Eu sou o julgamento e a absolvição.
Eu, eu sou pura,
e a raiz do pecado deriva de mim.
Eu sou o desejo na aparência externa,
e autocontrole interno existe em mim.
Eu sou a audição que é acessível a qualquer um
e o discurso que não pode ser captado.
Eu sou uma muda que não fala,
e grande é a quantidade das minhas palavras.
Ouça-me com gentileza, e aprenda comigo com severidade.
Eu sou aquela que exclama,
e eu estou jogada sobre a face da terra.
Eu preparo o pão com minha mente internamente.
Eu sou a sabedoria do meu nome.
Eu sou aquela que exclama,
e eu escuto.
Eu apareço e [...] caminho em [...] sinal da minha [...].
Eu sou [...] a defesa [...].
Eu sou aquela que é chamada Verdade
e injustiça [...].


Tu me reverencias [...] e tu murmuras contra mim.
Tu que estás subjugado, julgue os (que te dominam)
antes que eles te julguem,
pois o juiz e a parcialidade existem em ti.
Se tu fores condenado por este, quem o absolverá?
Ou, se tu fores for absolvido por este, quem será capaz de te deter?
Pois o que está dentro de ti é o que está fora de ti,
e aquele que te elaborou por fora
é aquele que moldou o teu interior.
E o que tu vês fora de ti, tu vês dentro de ti;
é visível e é a tua vestimenta.


Escutem-me, ouvintes,
e aprendam das minhas palavras, vocês que me conhecem.
Eu sou a audição que é alcançável a qualquer coisa;
Eu sou o discurso que não pode ser compreendido.
Eu sou o nome do som
e o som do nome.
Eu sou o símbolo da letra
e a designação da divisão.
E eu [...].
(3 linhas perdidas)
[...] luz [...].
[...] ouvintes [...] para vocês
[...] o grande poder.
E [...] não mudará o nome.
[...] aquele que me criou.
E eu falarei o nome dele.


Olhem então para as palavras dele
e todas as escrituras que foram concluídas.
Prestem atenção nelas, ouvintes
e vocês também, os anjos e aqueles que tenham sido enviados,
e vocês, espíritos, que tenham se levantado dos mortos.
Pois eu sou aquela que existe sozinha,
e eu não há ninguém que irá me julgar.


Porque muitas são as formas agradáveis que existem em numerosos pecados,
e incontinências,
e paixões vergonhosas,
e prazeres fugazes,
que os homens aderem até se tornarem sóbrios
e subirem aos seus lugares de repouso.
E lá eles me encontrarão,
e viverão,
e não morrerão novamente.



(Tradução adaptada de George W. MacRae)


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